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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Desventuras de um dendrólatra (Rubem Fonseca)


 Um ipê amarelo - Fotografia de Lenynha


Desventuras de um dendrólatra

É possível existir alguém que não goste de árvore? Não falo do sujeito, índio ou não, que faz a queimada para plantar mandioca, soja, cana-de-açúcar ou lá o que for. Esse vai direto para o inferno, mesmo jurando para São Pedro que fazia isso para conseguir o leite das crianças. Falo das pessoas que me cercam, que vivem na minha cidade e não têm qualquer razão para destruir, desprezar, ou até mesmo ignorar a existência das árvores.

O poeta polonês Czeslaw Milosz tem um poema denominado “Anelo” (ou “Desejo ardente”) que diz “não quero ser um deus ou um herói, apenas tornar-me uma árvore, crescer um longo tempo, e não ferir ninguém”.

São assim as árvores. Não ferem ninguém, e ainda dão sombra e frutos. Os druidas acreditavam que quando nos aproximávamos de uma árvore, nos acercávamos de um ser sagrado que nos podia ensinar sobre o amor e nos dar conhecimento e sabedoria. O termo druida tem origem céltica e acredita-se que seja um cognato da palavra grega drus que significa carvalho, essa árvore de grande porte.

Nosso nome, brasileiro, é proveniente de uma árvore de cerne vermelho, manchado de escuro, o pau-brasil, de onde veio o nome do nosso país. Somos, assim, parecidos com os druidas, eles se relacionam com o carvalho, nós com o pau-brasil. Apenas não acreditamos, como eles, que as árvores possam nos transmitir conhecimento ou sabedoria.

Moro numa praça onde periodicamente a Fundação Parques e Jardins planta algumas árvores, de maneira tão precária, que morrem em pouco tempo. São sustentadas por pedaços finos de bambu, que mal se mantêm em pé e não têm nenhuma proteção de metal em torno. Da última vez, plantaram oito árvores dessa maneira tosca e apenas uma sobreviveu, um ipê, que cresceu não obstante alguns mendigos bêbados, malucos ou vândalos cretinos, quebrassem constantemente os seus galhos.

Notando que ela não resistiria por muito tempo, pois a sua raiz não estava muito firme, telefonei para a Fundação Parques e Jardins. Dei o meu nome e endereço e falei da situação periclitante daquela árvore, expliquei que ela necessitava de uma proteção de metal, como as que existem na Praça Nossa Senhora da Paz. Eles prometeram uma providência. Um mês depois, como nada tivesse ocorrido, liguei novamente e disse que estava disposto a pagar pela proteção de metal. Aquilo deixou a pessoa que me atendeu meio perturbada, pediu para eu esperar na linha pois ia consultar alguém. Quando voltou disse que eles mesmos providenciariam a proteção.

Sei que a Fundação Parques e Jardins é integrada por pessoas dedicadas, que têm o maior interesse em preservar as árvores da cidade. Entretanto, a Fundação dispõe de um orçamento tão parcimonioso que tem dificuldades para atender às inúmeras solicitações que lhe fazem.

Toda noite, munido de várias garrafas grandes de plástico cheias de água, eu ia regar o ipê. Mas a sua raiz continuava bamba. Decidi solicitar o auxílio da BodyTech, uma academia de ginástica, que anunciava, com cartazes, que estava tomando conta da praça. Consegui que uma petição, assinada por vários sócios, fosse enviada à direção da academia solicitando providências em relação àquela árvore. Aconteceu alguma coisa? Nada. Aqueles cartazes da academia eram apenas propaganda.

Então decidi contratar uma pessoa para tomar conta da árvore. Esse indivíduo colocou vários quilos de terra adubada na raiz da árvore, improvisou uma proteção de madeira em torno do seu caule e borrifa, periodicamente, líquidos protetores em suas folhas.

Devido à influência do jornalista Agostinho Vieira, que tem uma coluna no GLOBO, Economia Verde, a Fundação Parques e Jardins colocou em torno da minha árvore uma proteção metálica.

Sei que existe quem diga que é uma coisa idiota fazer esse estardalhaço por causa de uma árvore. É devido a esse tipo de pensamento que uma, duas, três, milhões de árvores são incessantemente destruídas em nosso país. E isso me preocupa, quer seja um milhão de árvores, quer seja apenas uma. Sou um dendrólatra incorrigível.

Não posso deixar de citar trecho de um poema de Joyce Kilmer: “I think that I shall never see a poem lovely as a tree. [...] Poems are made by fools like me, but only God can make a tree.” (Em tradução livre: “Creio que nunca verei um poema lindo como uma árvore... Poemas são feitos por idiotas como eu, mas uma árvore só pode ser feita por Deus.”).

Essa praça, acrescento eu agora, deve ter todas as suas árvores, ou pelo menos a imensa maioria delas, destruídas pelo nocivo planejamento do metrô. A Praça Nossa Senhora da Paz em Ipanema vai sofrer a mesma violência. Realmente, como disse o poeta e filósofo alemão Schiller, “contra a estupidez humana até os deuses lutam em vão”. Mas quero deixar claro que não sou contra o metrô, como meio de transporte. Sou contra a destruição das árvores.


Rubem Fonseca


(Carta do escritor brasileiro a um jornal lida no Blog de Alberto Renault)