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segunda-feira, 19 de maio de 2014

A lei da metamorfose - blogue 'Insónia'



A LEI DA METAMORFOSE

E este é o maior elogio que se pode fazer a uma obra: nunca mais o burro foi o mesmo depois de Platero y yo ter sido lido; nunca mais as baratas foram as mesmas depois de Adília as ter metido em verso; nunca mais a mosca foi a mesma depois de O’Neill; nunca mais os porcos depois de Animal Farm; nunca mais o lobo foi o mesmo depois de, ainda em criança, me ter sido contada a história de Pedro e o Lobo; nunca mais o peixinho vermelho foi vermelho depois de Herberto; nunca mais a baleia depois de Herman Melville; nunca mais tanta bicharada foi olhada do mesmo modo depois de Esopo e de Ovídio e de La Fontaine e de Ambrose Bierce; nunca mais o rinoceronte após Ionesco ou as vespas após Aristófanes ou as moscas após Sartre; nunca mais senti os pássaros da mesma maneira depois de ter visto o filme de Hitchcock ou o tubarão depois de Spielberg; nunca mais os cisnes depois do lago; o rato depois de Mickey; nunca mais tanta coisa foi a mesma depois da lei da metamorfose. Mas do que eu gosto mesmo, mesmo, mesmo é do crepúsculo, de figuras como o Minotauro, o vampiro, o lobisomem ou dessa magnífica figura que é o centauro. E é o canto das sereias aquele que mais me atrai neste mundo. 


Lido em Insónia
(17.3.2009)