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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

António Sérgio e Oliveira Marques sobre Inês de Castro

Quinta das Lágrimas, em Coimbra

Dois excertos de dois dos mais reputados historiadores portugueses para ver a lenda de Inês de Castro de uma outra maneira. O primeiro pertence a António Sérgio e o segundo a A. H. de Oliveira Marques.



O episódio da morte de Inês de Castro, apesar de não ter significado histórico, é preciso mencioná-lo pela sua celebridade, pelo interesse humano da tragédia, e pelo lugar que tem na arte, na literatura e nas tradições de Portugal.

O infante D. Pedro, filho mais velho de Afonso IV (1325-1357), casou com D. Constança, senhora nobre castelhana. No séquito desta veio uma donzela, Inês de Castro, por quem o infante se apaixonou. Percebendo isto, desejou Constança que Inês de Castro fosse madrinha de um filho seu, para que o parentesco espiritual entre a donzela e o infante levantasse obstáculo à sua paixão. Quando morreu D. Constança, recusou-se D. Pedro a segundo matrimónio. Entretanto, alguns fidalgos castelhanos quiseram depor o seu monarca, substituindo-o pelo nosso príncipe, e Inês de Castro e os seus irmãos serviram de cúmplices na conjura. Era, como se está vendo, o problema melindrosíssimo da união com o vizinho reino, que neste período é dominante. O facto muito naturalmente alarmou os que queriam garantir a independência nacional. Por isso Inês foi julgada e condenada por uma espécie de conselho de estado. Encontrando-se pois o rei em Montemor-o-Velho, resolveu ir a Coimbra acompanhado de gente sua, que deveria executar a sentença. Inês, logo de princípio, percebeu as intenções de D. Afonso IV, e tais súplicas fez que o abrandou. Mas, quando este se retirava, apertaram com ele os conselheiros; «fazei lá o que quiserdes», respondeu-lhes; e então, Pedro Coelho e Afonso Gonçalves mandaram executar a condenada. O infante, furioso, revoltou-se contra o pai; dois anos depois subia ao trono; e, passado tempo (1360), em Cantanhede e em Coimbra, na presença de tabeliães e muitos homens da sua corte, declarou solenemente que casara com a sua amada, o que sempre conservara secreto para evitar desgostos ao pai. Não se limitou, porém, a isso: obteve do rei de Castela a entrega dos assassinos, que andavam fugidos naquele reino, e mandou matá-los na sua presença, tirando-se a um o coração pelo peito, e ao outro, pelas costas.

D. Pedro, a ajuizar pelas descrições de Fernão Lopes, o grande cronista, foi uma espécie de semilouco, plebeu de modos, galhofeiro, violentíssimo na cólera, com a mania da justiça, ou melhor, da punição, e preciosos dotes de administrador. Segundo o testemunho daquele escritor, «diziam as gentes que tais dez anos nunca houve em Portugal como estes que reinara el-rei D. Pedro».

Do casamento com D. Constança teve seu filho e sucessor D. Fernando; de Inês de Castro, os infantes D. João e D. Dinis; e de uma Teresa Lourenço, um outro D. João (n. 1357) que foi Mestre da Ordem de Avis, e, depois da morte de D. Fernando, rei e fundador de dinastia.

António Sérgio

Breve interpretação da História de Portugal.  Clássicos Sá da Costa Editora, Lisboa.

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D. Pedro, herdeiro da Coroa portuguesa, apaixonou-se por uma dama da casa da sua mulher, Inês de Castro, que pertencia a uma poderosa família de terratenentes de Castela. Ao que parece, D. Pedro converteu-se em joguete nas suas mãos e, segundo a versão «oficial» da história, na de seus parentes castelhanos também. O idoso e orgulhoso Afonso IV não podia tolerar tal facto, acabando por ordenar a morte de Inês (1355).

Inés Pérez de Castro era filha de D. Pedro Fernández de Castro, dito da Guerra, grande senhor galego, camareiro-mor de Afonso XI de Castela e primo direito do rei de Portugal D. Pedro I. Teve vários irmãos da mesma mãe e outro meios-irmãos mais velhos, entre os quais D. Fernando Pérez de Castro e D. Juana de Castro que veio a casar com o rei de Castela, Pedro I (1354). O avô paterno de Inês, D. Fernando Rodríguez de Castro, comandara, ao lado do seu irmão D. Juan, a invasão de Portugal pelo Minho, em 1337. Inês veio para Portugal em 1340, acompanhando a infanta D. Constança, mulher do futuro monarca português. Porventura, predilecta da infanta, foi madrinha do seu primeiro filho, D. Luís, que não vingou (1341). Os amores com D. Pedro parece terem começado cedo. Afonso IV obrigou então Inês a retirar-se para Castela, aonde se conservou até à morte de Constança, entre 1345 e 1349. Todavia, logo que a princesa faleceu, D. Pedro fez regressar Inês de Castro, passando com ela a viver maritalmente e tendo dela quatro filhos, nascidos entre 1349 e 1354. Talvez em 1351, tentou obter do Papa uma bula de dispensa que lhe permitisse o casamento com parente tão chegada. Este facto deve ter alarmado, tanto o rei como a alta nobreza cortesã, que não desejavam a interferência dos poderosos Castros castelhanos no jogo de influências local. Em 1345, um partido da alta nobreza castelhana adverso a Pedro I, onde militava D. Álvar Pérez de Castro, procurou, por intermédio deste, o infante português homónimo, convidando-o a aceitar a Coroa de Castela. Este facto parece ter actuado decisivamente no ânimo de Afonso IV e dos seus conselheiros mais chegados, que não pretendiam conflitos com o país vizinho e queriam evitar que Portugal se imiscuisse nas lutas civis de Castela. Assim, em Janeiro de 1355 Inês foi assassinada em Coimbra por ordem ou com a complacência do rei.

As consequências deste crime foram uma curta guerra civil e –coisa de muito maior importância– o surto de uma drama histórico que se aguentaria no cartaz durante mais de cinco séculos.


A. H. de Oliveira Marques 

História de Portugal. Volume I: Das origens ao Renascimento. Palas Editores, Lisboa.