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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O velho e o laranjal (Júlio Barata-Feyo)

 


Uma crónica do magazine de fim de semana do jornal  Público, que apareceu perdida entre os meus papeis.


O VELHO E O LARANJAL

Ela era jovem, na casa dos vinte, neta e única familiar dele. Vivia e trabalhava em Lisboa e fora visitá-lo à aldeia, no Algarve, porque andava preocupada. Nos últimos tempos, sempre que lhe telefonava, ele respondia com resmungas e monossílabos, sinal evidente de que a vida não lhe corria de feição. As coisas tinham piorado recentemente, ela tirara-se de cuidados e aproveitara o fim-de-semana para se meter a caminho e ir vê-lo. Encontrou-o a meio da manhã de sábado, a gozar o calor psicológico do sol de Fevereiro, sentado contra o seu muro de pedra preferido, aquele de onde via o mar. – Bom dia, avô - e o avô respondeu-lhe com um resmungo.

Percebeu que a situação era grave quando soube que dizia respeito ao laranjal. O laranjal era a menina dos olhos dele, plantado à mão, árvore a árvore, há mais de trinta anos e a sua única fonte de rendimentos a que lhe dava a dignidade de, no entendimento do avô, não ser um assistido da "esmola pública” (era assim que ele chamava à pensão mínima de sobrevivência). Cada ano que passava os comerciantes de laranjas baixavam a oferta pelo laranjal e ele estabelecera um limite na sua cabeça para aquela inexorável queda dos preços: no dia em que lhe propusessem menos dinheiro do que no primeiro ano em que vendera o jovem pomar, ele fosse cego se, se... Se, não sabia o quê, mas seria a revolta. E ela ali estava, a revolta.

– Ofereceram-me trinta contos, vê lá tu, trinta contos! Menos de dez escudos por cada quilo de laranja (O avô já não falava em reis mas também não atinava ainda com os euros).

– Sabes onde é que eu lhes disse que podiam meter os trintas contos, sabes? – A neta sabia ou pelo menos calculava, mas achou por bem não puxar pela resposta e ele em não insistir. Trinta contos. Menos de três contos por mes... O avô ia viver da horta e cortar no peixe e no tabaco, por esta ordem, que correspondia à importância dos dois produtos na hierarquia das suas prioridades.

A neta olhou-o com aqueles olhos verde claro que herdara dele. Passou-lhe pela cabeça explicar os princípios da concorrência dentro da União Europeia, os condicionalismos da mundialização, o sumo concentrado que chegava de Marrocos e do Brasil, não a dez mas ao equivalente a cinco escudos o quilo de laranja, explicar o mecanismo da margem de lucro das fábricas de refrigerantes, enfim, explicar-lhe a modernidade. Passou-lhe pela cabeça e nada disse. Sentou-se ao lado dele, também ela a olhar para o mar, mas viu apenas a derradeira morada de um vivo e um cemitério de recordações.

– As nossas laranjas são boas, avô – o velho concordou com a cabeça. – Conheço muita gente de Lisboa que pagaria bom dinheiro para vir colhê-las, directamente da árvore, a duzentos escudos o quilo ou até mais. São laranjas da terra, sem produtos químicos – o velho voltou a acenar que sim – e isso agora é que está na moda, cada vez mais na moda.

O avô tirou os olhos do mar, vagamente interessado, vagamente desconfiado. – E depois pisam-me a horta toda, está bom de ver. – A neta percebeu que ele mordera o anzol, o irracional anzol da esperança, sorriu e explorou a vantagem. –Se pisarem a horta, pagam ainda mais e têm direito a uma carga de porrada. – O avô tinha a fama de quem gostara de molhar a sopa na sua juventude.

O velho voltou-se outra vez para o mar, lentamente. Fora algumas vezes a Lisboa, para visitar a neta ou ser visto pelo médico. Franziu o sobrolho e pestanejou... Lembrou-se de gente em prédios de apartamentos como as sardinhas nas latas de Tavira, de sorrisos esquecidos como nos días de naufrágio, de buzinas raivosas como as sirenes dos barcos em noites de nevoeiro. Lembrou-se de gente com ar infeliz e que parecía gostar disso, de sofrer! Masoquistas, diria a neta. Que nada disse. O velho semicerrou os olhos para disfarçar um brilho de malícia. – Talvez tenhas razão. Mas se eles vierem, as laranjas é só para disfarçar. Vêm é para levar porrada.


Júlio Barata-Feyo


Nota sobre as moedas: O escudo era a antiga moeda portuguesa. 1 euro = 200,50 escudos. Um conto = 1.000 escudos.