POESÍA a rodos Textos em prosa em português (literários e não literarios) Vídeos com histórias

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

"Lisboa tratou-me, como já vem sendo hábito, muito bem."

Avenida dos Aliados, no Porto*


Lisboa tratou-me, como já vem sendo hábito, muito bem. Gosto genuinamente de Lisboa. Gosto das picardias saudáveis entre Norte e Sul. Divirto-me com os Lisboetas que nos olham com a sobranceria de quem foi uma ou duas vezes ao Norte, há muitos anos, visitar um familar bastante afastado. Como se o Norte fosse um lugar recôndito, por detrás de serras e vales, muito atrasado e sub-desenvolvido. Sorrio interiormente quando me perguntam se é a minha primeira vez em Lisboa como se não existisse Alfa Pendular ou como se os 300Km que nos separam correspondessem a uma vida inteira em viagem.

E depois perguntam como são as Galerias, o Maus Hábitos, a Champanheria da Baixa, a Miss'Opo. Não são nem Bairro Alto, nem Cais do Sodré e eu não tenho bem como lhes explicar as diferenças. O Porto não é Lisboa, está visto. Temos pronúncia e lançamos um bamos lá ber! parolão mesmo no coração de Carnide. Mas não temos Chiado (que raio!), nem Fábrica do Braço de Prata, nem LX Factory. O Majestic fecha aos Domingos à tarde, o metro é de superfície e a Time Out é mensal. Deve ser por isso que nos acham provincianos. A culpa é da Time Out mensal, está claro! Como é que não me lembrei disto antes?!

Fico triste por não termos Chiado, já disse, e essa é a parte mais chata de todas. Gostava de ter o brunch da Tartine e os livros a 5€ da Fyodor Books. E gostava sobretudo que o Porto dinâmico não se fizesse quase apenas da minha geração e das mais novas. Porque o Porto ainda tem uma faixa bastante conservadora, de gente que não vai em brunches e que olha de soslaio para D'Bandadas. O Porto tem gente mais genuína, no entanto. Não vamos tanto em aparatos e aparências, e nisso ganhamos claramente a Lisboa.

Fico assim, dividida, com vontade de entrar nos Aliados e sair no Rossio. Com desejo de arranjar um sistema qualquer de teletransporte. Ora estou cá. Ora estou lá. Almocinho na Foz e chá de final de tarde nas traseiras da Casa Fernando Pessoa. Não ter de escolher entre Porto ou Lisboa. Isso sim, seria vida!


Lido no blogue Alugo-me para rir!
(publicado: 18 de novembro de 2013)




 Praça de D. Pedro IV ou Largo do Rossio em Lisboa