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segunda-feira, 12 de março de 2012

Lugares comuns dos tempos de hoje (José Pacheco Pereira)



1. “VIVEMOS ACIMA DAS NOSSAS POSSES” – A frase podia ser dita com utilidade no passado, há um ano atrás. Como acontece com muitas frases certeiras do passado, ditas “por oposição”, “contra” o despesismo, tinham então todo o sentido. Hoje, as mesmas palavras servem para outro tipo de usos. A frase está envenenada pelo seu uso moralista, pelo seu uso como justificação e legitimação para todo o “ajustamento”. As medidas de austeridade eram bem mais aceitáveis se não viessem coladas a lições de moral. Ao dar ao “vivemos acima das nossas posses” um significado de culpabilização, o alvo muda. Deixa de ser os governantes e políticos, para passar a ser as pessoas comuns. As jovens famílias que se endividaram para comprar casa no início da vida estavam a fazer uma opção racional sólida, visto que o bloqueio legislativo da lei das rendas fazia com que não houvesse mercado de arrendamento. E acaso esperariam que um funcionário que recebia 10, se oferecesse para só aceitar 5? E para quê poupar quando era mais barato gastar? Digam-me qual a sociedade em que alguém racionalmente faz outras opções para a sua vida, que eu gostava de conhecê-la. É para quem tinha poder e decidiu, em tempos de abundância, ser gastador e imprevidente, é a esses que a frase devia ser dirigida, porque para eles, racionalmente, as decisões deviam ter sido outras. Por isso, a frase hoje destina-se a culpar todos, para depois penalizar apenas alguns. As excepções só confirmam a regra. 


2. A CRISE TEM UM EFEITO CATÁRTICO, “ESCOLHE” OS MELHORES, DEIXA PARA TRÁS OS PIORES” – Esta variante de darwinismo social está longe de ser demonstrada, bem pelo contrário. Os que “lucram” com a crise, os que a crise “escolhe” para serem os “melhores” são por regra aqueles que estão disponíveis para as maiores malfeitorias. Os que exploram várias formas de usura, os que compram bens por uma ínfima parte do seu preço devido ao estado de desespero dos que precisam de os vender, os que se aproveitam da nova legislação para ajustar contas antigas nas suas empresas, os que têm agora caminho aberto para um lucro fácil, os chefes que usam o poder que vem do medo do desemprego, da despromoção, da "mobilidade" forçada, para serem ainda mais arbitrários e prepotentes, os que se dobram diante de chefes e patrões para não irem para os “disponíveis” ou para o desemprego ou para a nova fábrica que abre ao lado da outra que faliu, com menos operários e salários mais baixos e menos direitos, os que transitam para a economia paralela para continuar a fugir aos impostos, os que encontram novas oportunidades para corrupção, alta, média e baixa. As excepções só confirmam a regra, mas ainda está por demonstrar que um ambiente de "salve-se quem puder" serve para "escolher os melhores".


3. “A CRISE GERA OPORTUNIDADES” – de um modo geral é falso: a crise destrói mais oportunidades do que as que gera. A regra é a crise reduzir muito significativamente as oportunidades disponíveis a cada um – de emprego, de ganhar dinheiro, de viver como se quer, de ter melhor vida que a dos pais, de se poder escolher a profissão para que se tem mais aptidão, etc.. As excepções só confirmam a regra.

No blogue Abrupto (© José Pacheco Pereira)