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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

"Sábio é o que se contenta..." (Reis / Pessoa)



Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo,
                   E ao beber nem recorda
                   Que já bebeu na vida,
                   Para quem tudo é novo
                   E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis,
                   Ele sabe que a vida
                   Passa por ele e tanto
                   Corta à flor como a ele
                   De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
                   Que o seu sabor orgíaco
                   Apague o gosto às horas,
                   Como a uma voz chorando
                   O passar das bacantes.

E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
                   E apenas desejando
                   Num desejo mal tido
                   Que a abominável onda
                   O não molhe tão cedo.

19/06/1914

Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa



O que são os heterónimos?