domingo, 30 de novembro de 2025

Fernando Assis Pacheco - Mas agora que vai descer a noite na minha vida

 

MAS AGORA QUE VAI DESCER
A NOITE NA MINHA VIDA


Mas agora que vai descer a noite na minha vida
Triste de mim mais triste que a tristeza
triste como a mão que segura o copo
como a luz do farol esgaçando a névoa
triste como o cão manco
deixado na estrada pelos caçadores

triste como a sopa entretanto azeda
mais triste que a idiotia congénita
ou que a palavra ampola

triste de mim triste e perdido
entre duas ruas
uma que vai para o Norte outra para o Sul
e ambas cortadas aos peões
que não cooperam devidamente
(com este governo de merda é claro)

triste como uma puta alentejana
num bar de Ourense
que me viu à cerveja e lesta
me chamou compadre
vozes que a gente colecciona

a tarde triste os anos tristes
a grande costura da tristeza
do esterno ao baixo ventre

triste e já sem nenhum reparo
a fazer à metafísica
senão que é um défice
porventura do córtex cerebral


                                                   Lisboa
                 3/18-VII-91, 20/21-XI-91, 22-1-92



Fernando Assis Pacheco


Respiração Assistida. Assírio & Alvim, 2003