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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

[de Stefan Zweig, a meio do Atlântico] (Ruy Ventura)



O poeta português Ruy Ventura lerá os seus versos na Aula de Poesía Enrique Díez Canedo, em Badajoz, no dia 3 de março. De manhã, na leitura para os alunos das escolas secundárias, será apresentado por duas das nossas alunas do "1º de Bachillerato".

Ficam aqui este poema e links.



[de Stefan Zweig, a meio do Atlântico]

a língua arde. queima
o coração, as veias, as células.
entre duas árvores, a corda
aperta a garganta. dissolve o anel e a saliva –
essa melodia
no interior do dragoeiro.

o incêndio alastra, sempre de negro.
sobe a escada, coloca sobre os olhos essa espada.
a língua arde. deixa entre as cinzas
vestígios de sombra. nada mais encontro
entre os escombros. antes da derrocada
levo para longe a última gota de sangue.
a saliva preenche o desespero,
o sopro do oceano.

fico deste lado, junto do medo.
tento salvar a última fronteira.
deixei este livro no sopé da montanha.
consigo ler. os símbolos
contudo têm pouca nitidez –
mesmo quando os entendo.

a língua arde. a flama acompanha-nos
neste forno. a chama desfaz
os ossos e o cabelo, o anel
e a melodia onde tento navegar.

de que vale cruzar o horizonte
quando a cinza guarda rebentos e palavras?
o incêndio alastra
deste lado do oceano. o sal lava o corpo
e a linguagem. o fogo devora a distância.
este fogo

encontra no coração
(na terra?)
essa ave nascida no início.



Para apreciar melhor o poema:



Stefan Zweig (Viena, 28 de novembro de 1881 — Petrópolis, 23 de fevereiro de 1942) foi um escritor, romancista, poeta, dramaturgo, jornalista e biógrafo austríaco de origem judaica. A partir da década de 1920 e até sua morte foi um dos escritores mais famosos e vendidos do mundo. Suicidou-se durante seu exílio no Brasil, deprimido com a expansão da barbárie nazista pela Europa, durante a Segunda Guerra Mundial.





Ruy Ventura na página de Antonio Miranda, de onde retiramos o poema de hoje.