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segunda-feira, 28 de abril de 2014

Os três velhos (Vasco Graça Moura)

Fotografia de Gérard Castello Lopes



OS TRÊS VELHOS

vinde cá ver estes três velhos
tão pacatos ao sol.
 
o país despovoa-se.
a curva demográfica desce.
a inflação derrapa.
o desemprego aumenta.
o estado rouba.

mas estes três velhos apanham sol,
contentes no correr da tarde.

os ricos baldam-se a pagar impostos.
o lince da malcata está em perigo.
a poluição ameaça os cursos de água.
as crianças aproveitam zero na escola.
há escândalos, negociatas, corrupção.

mas estes três velhos sentam-se num banco
e vão apanhando sol.

os espanhóis querem reter os rios.
a saúde está um coas.
a justiça está uma vergonha.
vivemos do cartão de crédito.
até vamos alugar submarinos.

mas estes três velhos franzem os olhos
e as caras enrugadas
à claridade solar benfazeja.

a agricultura está em crise total.
as pescas estão em vias de extinção e de miséria.
os empresários só funcionam com subsídios.
a construção de obras públicas encerrou.

mas estes três velhos só não querem
que lhes roubem o sol (como diógenes).

a televisão transmite as maiores idiotias.
os noticiários só fazem propaganda do governo.
a inépcia do governo não tem limites.
o primeiro-ministro afecta um ar untuoso de primeira-comunhão,
ou de baptismo porque a maioria tem muitos afilhados.

mas estes três velhos estão-se borrifando
solenemente.
não são de direita nem de esquerda.
apanham sol.

Vasco Graça Moura


Poema lido no blogue Cão celeste.


Vasco Graça Moura morreu ontem em Lisboa aos 72 anos. A notícia na página da  RTP
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