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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A felicidade (Miguel Esteves Cardoso)



Feliz é uma coisa que se é ou não é. Não se pode “estar” feliz. Pode-se estar-se bem disposto, pode estar-se alegre, pode estar-se satisfeito, mas feliz é coisa que simplesmente não faz sentido estar. Ou se é ou não se é. Mas não se julgue que é fácil saber qual das duas coisas será a mais triste.

As pessoas que não têm alegria na vida podem ter a esperança de se alegrar. As pessoas que andam sempre descontentes continuam a ter hipóteses de virem a contentar-se. As insatisfeitas podem muito bem satisfazer-se. Mas as pessoas infelizes, porque são mesmo infelizes, porque infelizes é uma coisa verdadeira que elas realmente são, não podem “enfelizar-se”. Feliz é também uma coisa que ninguém se torna, que ninguém fica e que ninguém compra. Ou se é, ou não se é. É como ser louro. (Apesar de eu achar que ser feliz é mais parecido com ser moreno).

As pessoas felizes são aquelas que têm vergonha de falar nisso. Em Portugal, dizer “Eu sou feliz” é como dizer “Eu sou rico” ou “Eu sou de boas famílias”. É escandaloso. Pode dizer-se “Hoje estou bem disposto!”, porque é como confessar uma anormalidade. É notícia. Dizer “Hoje estou mal disposto” é muito menos assunto de primeira página – é como a notícia “Homem mordido por cão no Rossio”. Em contrapartida, a notícia “Hoje acordei bem disposto” é mais aliciante; como “Cão mordido por homem no Terreiro do Paço”.

Ninguém tem pachorra para aquelas bestas sadias que estão sempre alegres e bem dispostas – é uma atitude de desrespeito perante a vida e a desgraça dos outros. Em Portugal, o que convém é andar mais ou menos. À pergunta altamente irritante “Então? Bem disposto?”, não é lícito nem responder que não (“Deixe-me soterrá-lo nalgumas misérias minhas”), nem responder que sim (“Deixe-me enaltecer junto de si alguns dos meus triunfos pessoais mais recentes”). A resposta de protocolo é “Oh...”, encolher os ombros, sorrir como quem diz “O que é que se há-de fazer?” e perguntar “Então e tu?”, com ar de quem já sabe a resposta.

Para ser feliz é preciso ser-se um bocado parvo. Eu, por exemplo, sou. A felicidade é inversamente proporcional a uma série de coisas de boa fama, como a sabedoria, a verdade e o amor. Quando se sabe muito, não se pode ser muito feliz. A verdade é quase sempre triste. É científica, uma chatice de células e de ácidos nucleicos, de factos não só nus como crus. Os factos! Apetece gritar-lhes: “Psshtt! Mas que pouca vergonha é esta? Vão já vestir-se e cozer-se!”.

É por isso que existe a mentira – é um dos mecanismos da felicidade. As pessoas felizes são aquelas que mentem a si mesmas sem dar por isso e que conseguem enrolar-se bem enroladinhas. Aliás, se formos a pensar no que distingue uma pessoa feliz de uma pessoa normal, verificamos que é o facto de a pessoa feliz nunca pensar em si própria. As pessoas normais martirizam-se com a profundidade das suas análises, ado¬ram enterrar os cotovelos nos pântanos lamacentos das suas motivações. Enfim, pensam muito nos problemas que têm. As pessoas felizes só pensam nos outros. É como se não existissem. É por isso – por não existirem esse bocadinho – que conseguem ser felizes. É uma ilusão óptica muito bem feita. Ninguém é mais feliz que o homem invisível.

(...)

Miguel Esteves Cardoso


Os meus problemas, Assírio & Alvim, 1ª edição, 1988, Lisboa. As crónicas deste livro foram publicadas originalmente no jornal Expresso.