domingo, 14 de fevereiro de 2021

Alexandre O’Neill - “Não o amor não tem asas..."

Coisas do amor! (Fotografia de Luzinete Martinez)


Não o amor não tem asas
se tem asas são as mãos
que se enlaçam para a festa
maravilhosa do corpo
e entre elas o coração

coração acordeão

Alexandre O'Neill

Coração Acordeão. Edição de Vasco Rosa. Lisboa, O Independente, 2004. p.13



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Alexandre O'Neill - Desaprender



DESAPRENDER

Há uma altura em que, depois de se saber tudo, tem de se desaprender. Sucede assim com o escrever. Com o escrever do escritor, entenda-se. Eu, provavelmente poeta, estou a aprender a... desaprender. E para quê e como se desaprende? Para deixar de ronronar, para que o leitor, quando o nosso produto lhe chega às mãos, não exclame, satisfeito ou enfastiado: «- Cá está ele!».

Na verdura dos seus anos, a preocupação do escritor parece ser a da originalidade. Ser-se original é mostrar-se que se é diferente. E as pessoas gostam das primeiras piruetas que um sujeito dá. E o sujeito gosta de que as pessoas vejam nele um talento.

Atenção, vêm aí as receitas, as ideias feitas, os passes de mão, os clichés, os lugares selectos ou, mais comezinhamente, os lugares comuns. O escritor está instalado. Revê-se na sua obra. Começa a abalançar-se a voos mais altos, a mergulhos mais fundos. É a intelectualidade que o chama ao seu seio, o público que o põe, vertical, nas suas prateleiras. Arrumado. Quase sem dar por isso, o escritor acomodou-se e tornou-se cómodo, quando propendia, nos seus verdes anos, a incomodar-se e a tornar-se incómodo. Organiza «dossiers» com os recortes das críticas que lhe fizeram ao longo da sua carreira (nome, já de si, chamuscante), vai a colóquios, celebrações, congressos. Ganha prémios.

É traduzido e publicado no estrangeiro. Por desfastio (e por que não?, algum dinheiro) aceita colaborar em conspícuas revistas ou em jornais efémeros como o dia a dia em que vão sendo publicados. Está de tal modo visível que já ninguém dá por ele. É o escritor.

Se as coisas continuarem indefinidamente assim, o escritor pode ser alcandorado a gloríola nacional, com todos os direitos inerentes a uma situação dessas: academia, nome de rua, estatueta ou estátua, tudo isso em devido tempo, quer dizer, já velho ou já morto o escritor. Pedra campal sobre o assunto.

Alexandre O'Neill

Uma Coisa em Forma de Assim (1980)



segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Última entrevista a Alexandre O’Neill e Alfredo Barroso sobre O'Neill

 

 

Publicado no blogue O funcionário cansado (1.09.08):

"Está quase a fazer 23 anos, a 21 de Setembro de 1985, foi publicada no Expresso a última entrevista de Alexandre O’Neill, feita por Clara Ferreira Alves. Deixo-a aqui:"

E agora deixo eu aqui: Alexandre O'Neill: a última entrevista


Mais um artigo de Alfredo Barroso no Jornal i (14-03-2018):

"Se há poeta do século XX que tenha compreendido a “patriazinha” foi Alexandre O’Neill. Mas a “patriazinha” não gosta de se ver ao espelho"

Alexandre O’Neill, o grande poeta “esticalarica e caixadóculos”


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Blogue Bianda - A mata

 Mata em S. Tomé (Fotografia de Robert Grant)


A MATA

Atravessando a mata. A mata vive, tem ossos, carne, coração, espírito. No carro o condutor conta a história da árvore que foi cortada num dia e no dia seguinte apareceu de pé, ainda com as marcas da serra, mas de pé e eu vi, vi mesmo. A mata tem mistérios.

Na roça do João oiço as histórias de S.Tomé, que são tantas, cruzadas, emaranhadas, resolvidas, mal resolvidas, problemáticas, esperançosas e por aí fora. O céu desaba-se em água. Chove sempre, sempre e forte. A mata tapa tudo, só se vislumbrando um punhado de casas ali, um troço de estrada mais além, o cume dum monte ao longe, uma breve vista do mar e as vozes.

A mata tem sons e vozes. S.Tomé tem povos vários, atirados do mar para dentro da mata. Com o lento escoar do tempo os povos se cruzam mas ainda dizem, nós, eles, aqueles, este é nosso, aquele é deles, não queremos saber nada deles e assim. Os povos ainda não sabem se juntar, num único abraço.


Lido no blogue Bianda
(12-11-11)

Uma ajuda do dicionário Houaiss para algumas palavras:

Mata 1. área coberta de plantas silvestres de portes diversos. 2. m.q. floresta ('conjunto de árvores') (...)

Floresta: denso conjunto de árvores que cobrem vasta extensão de terra; mata.

Roça: terreno de lavoura, grande ou pequeno; plantação, plantio.



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Alda do Espíritu Santo - Ilha Nua

Ilha de S. Tomé, fotografia de André Pipa


ILHA NUA

Coqueiros e palmeiras da Terra Natal
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.
Verdura, oceano, calor tropical
Gritando a sede imensa do salgado mar
No deserto paradoxal das praias humanas
Sedentas de espaço e de vida
Nos cantos amargos do ossobô
Anunciando o cair das chuvas
Varrendo de rijo a terra calcinada
Saturada do calor ardente
Mas faminta de irradiação humana
Ilhas paradoxais do Sul do Sará
Os desertos humanos clamam
Na floresta virgem
Dos teus destinos sem planuras...

Alda do Espíritu Santo

É Nosso o Solo Sagrado da Terra (1978)



Alda Espírito Santo, também conhecida por Alda Graça, teve a sua educação em Portugal, onde chegou a frequentar a Universidade.

Acabou por abandonar, em parte devido às suas actividades políticas, mas também por motivos económicos. Regressada a S. Tomé, veio a trabalhar como professora.

Na sua passagem por Lisboa, foi contemporânea, de Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto, Marcelino dos Santos, Francisco José Tenreiro e outras figuras do nacionalismo africano, designadamente na Casa dos Estudantes do Império.

Foi uma das mais conhecidas poetizas africanas de língua portuguesa, tendo ocupou s cargos de relevo nos governos de São Tome e Príncipe, como o de Ministra da Educação e Cultura, Ministra da Informação e Cultura tendo sido igualmente Deputada.

Os seus poemas aparecem nas mais variadas antologias lusófonas, nomeadamente em M. Andrade e F. J. Tenreiro, Poesia Negra de Expressão Portuguesa (1958); ª Margarida, Poetas de S.Tomé e Príncipe (1963); M. Ferreira, No Reino de Caliban II (1976); C. ª Medina, Sonha Mamana África (1988); O Coro dos Poetas e Prosadores de S.Tomé e Príncipe (1992); entre outros bem como em jornais e revistas de São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique.

Dados de Lusofonia Poética



sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Clarice Lispector - É para lá que eu vou

 



É PARA LÁ QUE EU VOU


Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.
À ponta do lápis o traço.
Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.
Na ponta dos pés o salto.
Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou
Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero. E para lá que eu vou. Na ponta da palavra está a palavra. Quero usar a palavra "tertúlia" e não sei aonde e quando. À beira da tertúlia está a família. À beira da família estou eu. À beira de eu estou mim. É para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim é um eu que anuncio.
Não sei sobre o que estou falando. Estou falando de nada. Eu sou nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.
É para o meu pobre nome que vou.
E de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. Eles me responderão. Enfim terei uma resposta. Que resposta? a do amor. Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.
À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto.
Oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo. E feneço lentamente.
Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós.

Onde estivestes de noite (1974)

 

 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Rui Knopfli - Estrada

 

Na estrada para Cobue, Moçambique. Fotografía de Carlos Reis


ESTRADA

Súbito apercebo-me:
Segue a viagem dos anos.
Passou o tempo das amoras
e das laranjas furtadas,
a flor da chuva de ouro
para sugar o gostinho a açúcar.

Sonho com uma comprida paisagem de cedros
que nunca vi.
Apetece-me deixar o corpo adormecido
junto ao rádio
e ir passear pelos galhos das árvores
e sobre os fios telefónicos.

Nada feito,
pesada de agruras e desertos
segue a viagem dos anos.

Rui Knopfli


O País dos Outros (1959)