segunda-feira, 13 de julho de 2026

Paula Rego - No grotesco há muita ternura (sobre Adília Lopes)

 


No grotesco há muita ternura

“Só no verão passado é que li a poesia da Adília Lopes, o editor enviou-me alguns livros para que eu ilustrasse a ‘Obra’. Comecei a ler e fiquei pasmada por haver alguém que escrevia aquelas coisas. Era inesperado. Passei a andar com os livros dentro da mala, não calculam o prazer intenso que me dava ler aquilo. De tanto reler já quase sabia os poemas de cor, e mesmo assim eram sempre uma surpresa. Quando fiz a ilustração das ‘Nursery Rhymes’ costumava de ler à noite e, de manhã, vinham-me as imagens, mas estes poemas fizeram-me logo lembrar a minha juventude, com as criadas, as bonecas, as mães ultraprotectoras. Lembro aquele poema em que a menina vai passear com a mãe e vê um cão e uma cadela a fazerem amor e a mãe não deixa a menina ver. Tudo o que queria estava nos poemas e acabei por fazer vários desenhos para escolher apenas três. A imagem da capa, reprodução de uma grande litografia a cores, ilustra as meninas a brincar às missas, a menina a brincar com a Joaninha ladra do moinho (ver Sete rios entrecampos’. E dá uma hóstia à outra. É sempre a minha modelo, a Lila, claro. Gostei muito do poema do vestido cor de salmão feito em pedaços que serve para vestir uma boneca e depois outra mais pequena que cai a um poço [ver ‘O decote da rainha de espadas’ ]. Aos poemas de “A continuação do fim do mundo” fui buscar a imagem da contracapa, é a avó a beijar a menina na boca, no sofá do atelier [e que é o mesmo onde se senta Dionísia, a tecedeira de anjos, em ‘O Crime do Padre Amaro’].. Adília Lopes é de um grande romantismo - por exemplo, diz: ‘Ah, quem me dera um vestido que me queimasse’ - e ao mesmo tempo de um grotesco e de um cómico transbordantes. Para mim, o grotesco é belo, o grotesco é de uma grande ternura. E ela está cheia de ternura e de compaixão, mas não é lamechas. A maldade é reconhecida mas não é praticada, sem ser maledicente reconhece o que é importante no mal. A maldade é o outro lado das coisas boas. Dizer que é uma tímida que se desenrasca é uma boa definição para a Adilia Lopes. Tal como Mário Cesariny, ela é cândida e culta, leu tudo, e ao mesmo tempo tem inspiração. Tenho muito trabalho e estive a ler outros livros, mas não me consigo libertar da poesia da Adília Lopes. Gostei muito”.

PÚBLICO, MIL FOLHAS, 10 de Fevereiro de 2001


A Obra de Adília Lopes, desde 1985 até ao inédito O Regresso de Chamilly, é publicada num só livro, ilustrado e aplaudido por Paula Rego.


(Lido en Arlindo Correia)