segunda-feira, 25 de maio de 2026

Ana Paula Tavares - “Devia olhar o rei…”

 


Devia olhar o rei
Mas foi o escravo que chegou
Para me semear o corpo de erva rasteira

Devia sentar-me na cadeira ao lado do rei
Mas foi no chão que deixei a marca do meu corpo
Penteei-me para o rei
Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo

O escravo era novo
Tinha um corpo perfeito
As mãos feitas para a taça dos meus seios

Devia olhar o rei
Mas baixei a cabeça
Doce terna
Diante do escravo.

Ana Paula Tavares


Manual para amantes desesperados. Lisboa: Editorial Caminho, 2007


(Lyrikline, e ouvimos a poeta dizer o poema) 



Fotografia de ©Marcos Freire