segunda-feira, 1 de abril de 2019

"Pai, dizem-me que ainda te chamo..." (Maria do Rosário Pedreira)

Fotografia de Aurélio Vasques

No próximo dia 4 de abril, Maria do Rosário Pedreira lerá os seus versos na Aula de Poesía Enrique Díez-Canedo e será apresentada por alunos da nossa escola.


Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante
o sono - a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas
da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí

nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me

depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem

que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome - porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.

Maria do Rosário Pedreira

Nenhum Nome Depois (2004)


Aqui, "Mãe, eu quero ir-me embora..."