”(…) Quando eu era pequeno, a casa era antiga. Era a casa de muitas pessoas que lá tinham vivido antes de nós, mas era nossa, porque essas pessoas eram gente que tinha gostado de nós. Porque os pais do meu pai tinham gostado dele e ele gostava de mim. (…)
Quando eu era pequeno, brincava com carrinhos à volta da mesa da cozinha. Fazia corridas e, embora fosse eu contra mim, os carrinhos que eu queria que ganhassem ganhavam sempre. (…)
Quando eu era pequeno, a minha mãe gostava muito de mim. Na sua voz de mãe, chamava-me por um nome d menino e apertava-me muito contra o peito. A minha mãe queria que eu dormisse a sesta e contava-me histórias que sabia de cor. A minha mãe era minha amiga e contava-me muitas histórias. A minha mãe era muito nova e bonita. Eu podia fazer as piores maldades, que a minha mãe, depois de se zangar um pouco, depois de me ralhar um pouco, continuava sempre a preocupar-se comigo e a dizer-me tens de comer tudo para seres grande. Quando íamos à cidade, eu andava de mão dada com a minha mãe nas lojas de roupas e depois, a minha mãe comprava-me um carrinho ou uma corneta de plástico. Eu gostava muito de a ver feliz e, às vezes, ia ao jardim e arrancava uma flor para lhe dar.
Quando eu era pequeno, fazia coisas e a minha mãe ria-se. No Inverno, íamos para a sala de baixo. Sentava-me no chão a brincar em cima de uma manta de retalhos e a minha mãe, sentada à lareira, contava-me histórias da família dela e coisas verdadeiras como se eu fosse grande. (…)
Quando eu era pequeno, soube-o mais tarde, a minha mãe não tinha ninguém com quem conversar. (…)
Quando eu era pequeno, era feliz e, só mais tarde percebi, a minha mãe sofria muito. Nunca ninguém me contou nada. Nunca ninguém falou nisso. Nunca ninguém me contou nada. Só depois do dia em que fiz dezoito anos (…) reconstruí a minha memória, pensei e percebi que a minha mãe sofria muito. Quando a minha mãe chorava. Quando a minha mãe me abraçava. A minha mãe, a pessoa de quem eu gostava com a ingenuidade e a beleza toda do amor das crianças, a minha mãe sofria muito. (…)
José Luís Peixoto
Uma Casa na Escuridão
(2022)
(Lusografias)