segunda-feira, 4 de março de 2019

Para cinquentões (Carlos Drummond de Andrade)



PARA CINQUENTÕES

Carnaval, carne dada aos vermes
(diz a falsa etimologia)
como pode o cronista inerme
cronicar em plena folia?

Como esquivar-se a teu império
que é serrano em Vila ou Mangueira,
se em mim ri aquilo que é sério
e séria, mesmo, é a brincadeira?

Carnaval, já não sou tão moço
para emilinguir-me no frevo
e sair de guizo ao pescoço
(riso, quatripétalo frevo).

Também inda não sou tão velho
que não ouça o ronco na cuíca.
E da razão o bom conselho
(má rima) não me mortifica.

Entre duas águas, meu caro,
meio-lá-maio-cá me sinto
como um animal semi-raro
divagando no labirinto.

Carnaval, magia do samba!
Fígado, fiscal do consumo…
Para dançar na corda bamba
tanto faz, serpentina, o rumo.

Não fugirei para a montanha
nem pescarei na Marambaia,
pois ante confusão tamanha,
quedemos (Posto 6) na praia,

perto-longe da farra, ouvindo
e vendo, imaginando, enquanto
um carnaval muito mais lindo
dentro de nós eleva seu canto;

carnaval de delícias longas
e cabriolas arlequinais,
feito de caras songamongas
se esbaldando no nunca-mais;

carnaval antigo e futuro
baile de outro Municipal
ou Praça 11 acesa no escuro
da saudade do carnaval.

E é o melhor de tudo, afinal.


Carlos Drummond de Andrade