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segunda-feira, 14 de maio de 2018

“Guiné”, anarquista encartado (Ricardo França Jardim)



"GUINÉ", ANARQUISTA ENCARTADO

César Figueira César foi provavelmente o pedagogo mais célebre da Madeira. À distância de duas gerações, pelo nome, talvez poucos o recordem, mas se se falar do “Guiné”, não faltarão histórias. Caucasiano de alvíssima pele, entroncado, com largo pescoco descaído para a direita, mais parecia um personagem do “Malhadinhas”, daqueles que varriam feiras à força do varapau, do que um autóctone da nossa antiga colónia. Aliás, a singular alcunha nada tinha a ver com África, mas pela semelhanca com um vapor da Companhia Colonial chamado “Guiné”. Esclareço. Se o “Guiné” professor fez parte do meu universo juvenil, já o mesmo não aconteceu com a embarcação homónima, que deixou de navegar em 1948, teria eu dois anos. Mas recordo-o pela evocação de uma história que ouvi vezes sem conta. Em Setembro de 1918, a escassos meses do armistício, navegava o “Guiné”, então sob o nome de “San Miguel”, entre o Funchal e Ponta Delgada, quando foi avistado pelo submarino alemão U 139, comandado por um tal Lottar von Arnaud de la Periere, recordista mundial, com 194 navios afundados. Vinha o “San Miguel” protegido pelo “Augusto de Castilho”, um barquito de pesca a que os expeditos políticos da Primeira República pintaram de cinzento e juntaram dois canhões decorativos, transformando-o em vapor de guerra.

Esperando embora morte certa, Carvalho Araújo, o comandante desta nau catrineta, atirou-se ao inimigo, retendo-o o tempo necessário para dar fuga ao “San Miguel”. Era uma época em que se imaginavam as guerras como jogos de cavalheiros, com quixotismos e códigos de honra. Por isso, afundado o pesqueiro, a tripulação alemã rendeu homenagem aos heróicos derrotados, prestou assistência aos sobreviventes e deixou-os seguir num bote a remos até a ilha mais próxima. E como nada se perde tudo se transforma, quando em 1930 a Empresa Insulana substituiu o "San Miguel" por um novo paquete a que deu o nome de "Carvalho Araújo", o velho navio continuou ao activo, com as cores de outra companhia, sob o nome de "Guiné". E talvez pelas obras de adaptação, ou pelo cansaco, ou porque se calhar também os velhos barcos apanham mazelas, escolioses, "bicos de papagaio", coisas assim, o "Guiné" passou a navegar inclinado a estibordo, lembrando o vagaroso andar do nosso professor de inglês, César ao quadrado Figueira, que tam- bém pendia para o mesmo lado. E só um espírito ilhéu pode consentir o surrealismo de alcunhar um homem pela sua parecença com um vapor.

Pois bem. Se a alcunha era surrealista, as aulas do "Guiné" conseguiam sê-lo ainda mais. Começava na verificação das presenças, gritando: "Quem falta que se levante." Estava aberto o circo. Que continuava quando o contínuo batia à porta e lhe respondia o "Guiné": "'Between'. 'between', entre, senhor Plácido." Demorava tempo até algum aluno mais sábio, dando conta da substituição do verbo pela preposição, tentar corrigir o mestre. Diz-se "come in", porque "between" designa situação de lugar, espaço entre duas coisas. Gargalhada. E o "Guiné" a fazer a parte: que o sr. Plácido, ao entrar ("to come") na sala, passava "between" (entre) as ombreiras da porta. Mais adiante, era o "Guiné" a traduzir "daily industry" (indústria de lacticínios) por "indústrias diárias". E nova polémica, com mal disfarçado gozo: lacticínios vem do leite, produzido diariamente pelas vacas, logo "indústrias diárias".

E tudo facilitava o zero em comportamento. Com o "Guiné" a acartar para o gabinete do sr. reitor os troncos de lenha com que lhe atulhavam a secretária. E as lagartixas a saltar do livro do ponto, e o milho em grão, e a guerra dos aviões e a malta, casacos do avesso, em saudação romana: "Ave César Imperial!" E se por acaso o ambiente estivesse pacífico, "Guiné" contra-atacava, propondo, em retroversão para o inglês, frases extraordinárias, assim: "Hoje, as vacas andaram a pastar em cima do meu telhado." Questão de forma, pouco interessa o conteúdo, defendia o "Guiné". E, anarquista encartado, logo subia a parada: "Os meus passarinhos são mais bonitos que os filhos do meu vizinho, porque foram comprados noutra mercearia, ponto final."

Na época, era a anarquia instituída. Porém, à distancia dos anos, vejo o "Guiné" como um palhaço por vocação. E por provocação. Com todo o mérito da palavra. Normalmente, as parelhas de "clowns" comportam urna dicotomia, dois contrários: o "Cara Branca", palhaço rico, sabichão, voz grave, que impõe, dá estaladas, e castiga com as lantejoulas do seu saber; e o Augusto, o palhaco pobre, trapalhão, que apanha, ri e faz rir, e subverte a ordem estabelecida das coisas, despertando o rebelde que há em cada um de nós. Aquele universo de Deus, Pátria, Autoridade, Carmonas, Salazares, Mocidade Portuguesa, reitores e manuais escolares de pensamento único, era o mundo dos "Caras Brancas". E nós, pobres meninos, casaquito e gravata, mascarados de homenzitos em miniatura, éramos prisioneiros naquele Liliput totalitário. E era este universo que o "Guiné" subvertia com a mais ingénua das canduras. Só por isso merece homenagem. Deve existir aí pela Madeira - tão rica em palhacos brancos, grotescos e maçadores - uma escolita qualquer, ainda sem orago. Ponham-lhe o nome de César Figueira César. Para, de futuro, haver algum garotito mais curioso a indagar: "'Guiné'?! Quem era esse gajo?"

Ricardo França Jardim


Magazine Pública (4 Maio 1997)