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quinta-feira, 5 de abril de 2018

Dois textos de António Gregório

O ARTISTA NÃO VOLTARÁ PARA O BIS

É um momento que me comove particularmente nos funerais, o aplauso à passagem da urna, como no fim de um longo espectáculo; depois o rumor da debandada dos estimados espectadores, cada um retomando só, embora a cisma da companhia, a performance do seu. Agora vou dançar.



UM TEMPO NOVO

Gosto tanto deste primeiro dia de hora nova, de chegar, como agora, às sete e meia da tarde, dar uma palmada sonora, inaugural, na minha própria testa e dizer Já?, pensei que ainda eram seis e meia.

(De alguma maneira enviesada, lembrei-me deste poema, Dióspiro, de Daniel Maia-Pinto Rodrigues: depois do almoço/ quando arrastamos a cadeira/ um pouco para trás/ uma sonolência morna/ entrelaçada de luz/ entra pelas janelas/ ludibria as cortinas/ e difusa poisa no vinho// é nessa altura que dizemos:/ vou comer este diospiro/ antes que apodreça)

António Gregório


Publicados no dia 25 de março de 2018 em CORAÇÃO ACORDEÃO. Um blogue de variedades