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quarta-feira, 4 de junho de 2014

Mundial 2014: delírio tropical ou porta para a modernidade

O novo estádio de Manaus custará 204 milhões de euros
(Foto: Nelson Garrido)



Mundial 2014: delírio tropical ou porta para a modernidade

Hugo Daniel Sousa (texto) e Nelson Garrido (fotografia, em Manaus)
05/03/2014 - 00:01

Para uns, o Mundial de futebol no Brasil é uma megalomania sem sentido. Para outros, é uma oportunidade de mostrar o país ao mundo e fortalecer a economia brasileira.

A praça é bonita, arranjada como poucas. As árvores, os bancos de madeira, a calçada portuguesa, os prédios baixos e pintados de fresco: tudo está impecável. E ali ao lado ergue-se o Teatro Amazonas, majestoso, com uma cúpula verde e amarela, a simbolizar a grandeza do Brasil. Ao mesmo tempo que o calor húmido invade os corpos, percebe-se por que razão Manaus já foi conhecida como a Paris dos Trópicos. Há quase 120 anos, um governador chamado Eduardo Ribeiro, visionário ou megalómano, transformou uma aldeia numa metrópole.

Mais de um século depois dessa transformação feita com o dinheiro da borracha exportada para a Europa, a maior cidade da Amazónia lançou-se em mais uma obra gigantesca e cara: um estádio de futebol para receber quatro jogos do Mundial de futebol deste ano. É um recinto bonito, moderno, uma obra de engenharia complexa. Tal como o teatro, está num plano mais elevado e também se impõe a tudo o que o rodeia.

No início da década de 1890, Eduardo Ribeiro foi, para uns, louco e, para outros, um homem à frente do seu tempo. A discussão repete-se agora: um estádio às portas da Amazónia está condenado a ser um elefante branco numa cidade sem clubes nas principais divisões do futebol brasileiro ou pode tornar-se um novo símbolo para a região? A pergunta transforma Manaus numa espécie de metáfora do Brasil que não se limita a receber o Mundial de futebol mas que quer organizar “a Copa das Copas”, como diz o slogan que a Presidente Dilma Rousseff não se cansa de repetir.

O Brasil não precisava de construir 12 novos estádios em 12 estados diferentes, da Amazónia, no Norte, a Porto Alegre, no Sul. É o próprio ministro do Desporto, Aldo Rebelo, quem o admite, assumindo que essa foi uma opção política. A FIFA também nunca o exigiu e até preferia menos cidades. Então porquê organizar o Mundial da forma mais extensa (e cara) possível? “Porque somos um país-continente”, respondeu Aldo Rebelo em entrevista ao PÚBLICO, afirmando que a Amazónia não podia ficar de fora.

“Curiosamente, ou desgraçadamente, o Brasil está repetindo em democracia a mesma megalomania dos militares, que construíram estádios por todo o país. O estádio de Manaus agora demolido foi construído no tempo da ditadura militar”, diz o jornalista Juca Kfouri, colunista da Folha de São Paulo e autor de um dos blogues de desporto mais populares do país.

O Teatro Amazonas, onde se cumpriu o desejo de ouvir ópera às portas da selva, é uma obra imponente. Nenhum edifício da cidade se lhe compara e os arranha-céus construídos um pouco por todo o lado não lhe retiram brilho. E, no reluzente interior, revela-se uma exuberância parisiense, feita de dourados, frescos, lustres e até um tecto que simula a Torre Eiffel vista de baixo. Já a Arena Amazónia é um estaleiro de obras, numa corrida contra o tempo. Está a ser construída no mesmo local do Vivaldão, o antigo estádio de Manaus que foi demolido para dar lugar a um novo recinto com 40 mil lugares, numa zona elevada da avenida que liga o aeroporto ao centro da cidade. “O estádio Vivaldo Lima podia ter sido aproveitado. Era um projecto arquitectónico premiado”, critica o escritor amazonense Milton Hatoum, que mora em São Paulo, mas nasceu e viveu em Manaus: “Esse novo estádio é um delírio populista e demagógico, com tenebrosas transacções, como diz a canção de Chico Buarque.”

Dentro do estádio, que tem a forma de uma cesta de frutas, milhares de trabalhadores finalizam a polémica obra. “Mesmo reformado, o Vivaldo Lima não tinha forma de oferecer condições adequadas a um evento deste padrão”, contra-argumenta Miguel Capobiango Neto, coordenador da Unidade Gestora do Projecto Copa do Governo do Amazonas. “Os estádios têm de dar conforto a quem vem assistir ao vivo, mas também condições de boa transmissão de imagem, até porque o volume de pessoas que assistem aos jogos em casa é muito maior do que o dos que assistem no estádio”, acrescenta, na azáfama de berbequins e martelos.

O preço desta opção é de 669 milhões de reais (204 milhões de euros), o custo global do novo recinto, todo por conta do Governo do Amazonas. Só que desta vez não há o dinheiro da borracha, que há 120 anos permitiu a Eduardo Ribeiro transformar Manaus numa cidade digna de ser capital. “Quando em 1906 um Presidente da República veio cá pela primeira vez, ficou boquiaberto”, conta Robério Braga, historiador e secretário da Cultura do Amazonas. “Afonso Pena declarou: ‘Manaus é o sonho da República. Isso não existe no resto do Brasil.’ E não existia mesmo.”

Esse era o tempo da Manaus Paris dos Trópicos. As senhoras compravam vestidos nas lojas parisienses, as famílias mandavam lavar a roupa em Lisboa, falava-se francês às refeições e ia-se à ópera. E é difícil não lembrar esse passado glorioso quando se ouve o responsável do Mundial dizer que “esse novo estádio pode ser o Teatro Amazonas do século XXI”: “É um novo momento”, diz Capobiango, sentado numa das cadeiras às cores da arena, a evocar as frutas da região.

 A notícia completa no jornal Público.