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segunda-feira, 17 de junho de 2013

Arranja-me uma moedinha esperta, senhor! (Fernando Peixeiro)




Arranja-me uma moedinha esperta, senhor!

Senhor Neves, como estás?

O começo desta carta também não é mero acaso. E devo desde já dar-te uma grande alegria, porque essas nos dias que correm são tão escassas que quando temos uma devemos logo partilhá-la. Pois aqui de Cabo Verde confirmo. Portugal deve ser mesmo país de muitos doutores e engenheiros e pessoas assim importantes. Ou então Cabo Verde é tão pobre, tão pobre, que não pode ainda fazer o “upgrade” de cada cidadão.

Eu não sei, mas se calhar o engenheiro primeiro-ministro de Portugal ainda não se lembrou de um slogan do género “um português, um doutor” e de prometer até final da legislatura que seremos dez milhões de doutores e engenheiros. Promessa fácil de cumprir, se tomar como certas as tuas palavras.

Pois aqui não. O chefe do Governo é conhecido por “primeiro-ministro” ou então “José Maria Neves”. É certo que alguma oposição e algumas pessoas menos contentes com a sua política chamam-lhe outros nomes. Mas esses não os vou reproduzir, que isto é uma carta de gente séria.

Mas quando toca ao resto do Governo, ou à oposição, ou a presidentes de empresas, parece-me ser o mesmo. São ministros ou presidentes disto ou daquilo ou são tratados pelo nome, com o respeito, naturalmente, que o cargo merece.

A mim, estrangeiro branco e por aqui sinónimo de ter dinheiro, além de tentar também ser delicado, ainda nunca ninguém me chamou de doutor.

E mesmo quando me estão a cravar uma moeda, quando muito tratam-me por senhor. Senhor é, de resto, a palavra mais usada como sinónimo de respeito, ainda que a coisa por vezes descambe logo a seguir.

“Senhor Fernando, como estás?”. Assim. Ou então num tom mais informal ainda: “Ó campeão, não se arranja aí uma moedinha esperta?”.

A outro nível, dos departamentos do Governo ou de outras instituições, alterna-se entre o tratamento por “tu” ou por “você”, com ou sem “senhor”.

Mas sempre com a maior delicadeza. Os cabo-verdianos nem sempre são simpáticos, mas são muito educados. E são-o assim naturalmente, não te estão a chamar de “senhor” porque querem alguma coisa de ti. Como também não te agradecem efusivamente se vais visitar uma criança que acabou de nascer e lhe levas um presente.

Mas reconhecem. Sem serem expansivos ficam teus amigos ainda tu não percebeste porquê. E assim, sem perceberes porquê, já estás em casa deles, a comer à mesa com eles, a rir uma tarde inteira com eles, a ir à praia, a combinar fins-de-semana… e eles na tua casa a vasculharem-te o frigorifico à procura de alguma coisa que se coma ou se beba, agarrados ao teu comando da televisão ou a fazer apreciações criticas aos quadros que tens na parede.

Ou seja, caro amigo, os cabo-verdianos não são doutores nem engenheiros, nem arquitectos, mas são uns senhores. Estás a entender senhor?


Publicado por Fernando Peixeiro em Cabo Verde (23-março-2007)


 Atlântico expresso Um mar de palavras e memórias