POESÍA a rodos Textos em prosa em português (literários e não literarios) Vídeos com histórias

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A conjura (José Eduardo Agualusa)


1

Difícil dizer quando tudo começou. Mas tudo começou, é claro, muito antes desse dia dezasseis de Junho de mil novecentos e onze. Vavó Uála das Ingombotas diria que tudo começou no princípio dos tempos e que desde o princípio estava previsto que seria assim. Os acontecimentos se amarrariam uns aos outros – uns puxando os outros – através do confuso turbilhão das noites e dos dias. Infalivelmente, irremediavelmente, tudo haveria de desaguar naquela tarde vertiginosa e absurda.

É preciso, contudo, marcar data menos remota. Para o humilde autor deste relato, os casos tiveram o seu berço foi mesmo nesse ano esquecido de mil oitocentos e oitenta, aquando da chegada a Luanda de um moço benguelense, de sua graça Jerónimo Caninguili.

Vamos pois começar desde o princípio.


2

Muitos houve que estranharam aquele nome de Fraternidade posto por Caninguili à sua loja de barbeiro. Alguns reprovaram-no abertamente, e entre estes estão não só os realistas mas mesmo certos republicanos a quem assustava o atrevimento desse moço, negro e pequenino, ainda agora chegada à capital e já afrontando as regras, atraindo os desamores da autoridade.

Outros teve que acharam graça, aproveitaram com ruído a ousadia; logo se fizeram clientes e amigos certos. A simplicidade do barbeiro, a sua candura e alegria, depressa cativaram, contudo, mesmo os mais recalcitrantes, e assim é que, quatro meses após a sua chegada, já a Loja de Barbeiro e Pomadas Fraternidade se tinha transformado num pequeno clube de ideias.

Fisicamente, Caninguili devia poucas graças ao Criador. Ezequiel gostava de se referir a ele chamando-o de «o nosso sapinho capenga»; e assim resumia a feiura do designado, o seu escasso metro e sessenta e o facto de mancar da perna esquerda. Quando falava, porém, com aquele seu jeito manso de acariciar as palavras, operava-se em Caninguili uma transformação sensível e tudo seria nessa altura, menos certamente um sapo. Capenga! Razão por que, fatigado já da velha pilhéria, Alfredo Trony repreendera certa vez Ezequiel observando-lhe que sempre houvera no mundo príncipes disfarçados de sapos e sapos disfarçados de príncipes.

- É no falar que se revelam os príncipes e no coaxar que os sapos se denunciam – dissera Trony, para logo acrescentar -, pelo que ao meu amigo lhe aconselho a mais severa abstinência verbal. Não abra a boca que não seja para engolir as moscas. 

José Eduardo Agualusa

(Assim é que começa este romance do escritor angolano, publicado em  1989. Podem ler mais um pouco em Hoje Lusofonia)