CANÇÃO DE DAVI NA JANELA
A mulher de Urias estava tomando banho.
Eu vi a mulher de Urias.
Peitos mais belos eu nunca vi.
Quebrei a cítara, versos não faço,
eu vi a mulher de Urias,
peitos mais belos nunca hei de ver.
A mulher de Urias estava tomando banho
em frente ao meu palácio.
Quero a mulher de Urias,
nunca vi corpo mais belo.
Quebrei a cítara, salmos não faço,
trono não quero, guerras parai.
Só quero a mulher de Urias.
Peitos mais belos eu nunca vi.
Se olho as nuvens, se desço à terra
vejo os dois peitos.
A mulher de Urias estava tomando banho
no riozinho que passa
em frente de meu palácio:
eu via a mulher de Urias.
Não sou mais poeta,
troco meu trono
pelos dois peitos.
Se olho o mundo vejo os dois peitos.
Se olho o céu vejo os dois peitos.
Não sou mais rei, versos não faço.
Trono não quero.
Só quero a mulher de Urias.
Jorge de Lima
(Willem Drost (1633 - 1659) - Betseba com a carta de David, 1654)
quinta-feira, 29 de maio de 2025
Jorge de Lima - Canção de Davi na janela
segunda-feira, 26 de maio de 2025
Bocage - "Meu ser evaporei na lida insana..."
Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana:
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua orgia dana.
Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos:
Deus, oh Deus!... Quando a morte à luz me roube
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube
Bocage
quinta-feira, 22 de maio de 2025
Ana Monjardino - Bilhas de leite
BILHAS DE LEITE
Zé Manduca era o caseiro dos meus avós. Era um touro de força. E igualmente bruto.
A sua primeira tarefa do dia era ordenhar as vacas. Elas gostavam dele. Deixavam-se estar, tranquilas, enquanto ele as aliviava do excesso. Antes de seguirem para o pasto, havia sempre uma que se despedia com turras e encontrões que ele retribuía. Essa acabou por morrer no colo dele com um vitelo entalado. Trazia o leite ainda quente para o pequeno almoço dos patrõezinhos – o meu Pai e os seus quatro irmãos. Se não tivesse sobrado manteiga, pescava-se a nata com o dedo e comia-se no pão. Nas mãos dele, as bilhas até pareciam vazias. Num desafio de machos jovens, um dos meus tios tentou levantar uma. Nem se mexeu. A partir daí, Zé Manduca passou a herói. Mas quando bebia, metia medo. Bom tipo, mau vinho.
Desaparecia o resto do dia, nas suas tarefas de Hercules açoriano. Só se ouviam os latidos do Cara Negra, marcando os cantos da quinta, trotando no seu encalço como se fosse o dono.
Os meninos cresceram e foram estudar para o continente. Os meus avós mudaram-se para a Cidade e deixaram a quinta aos fetos-reais. Fora dela, Zé Manduca estava fora de contexto. Sem jeito. Ainda lhe deram um lugar na empresa da família. Nunca se adaptou.
Depois veio o progresso. A Cidade passou a ter semáforos. Abriu o Hiper. Na véspera da inauguração, mais de mil pessoas pernoitaram no parque de estacionamento. Choveu, como de costume. Um homem deu uma surra à mulher por ter gasto as economias de uma vida num trem de cozinha. Era em inox, justificava-se ela debaixo da pancada.
Numas férias grandes, o meu Pai foi visitá-lo. Encontrou-o velho e cansado de olhar para os pés. Não tinha nada para fazer. Isso não faz bem à cabeça de um homem. O meu Pai ainda propôs ensinar-lhe a ler. Disse que não tinha serventia para ele. Tal como ele não tinha para ninguém.
Alguém disse que o viu saltar da rocha, chamando às mãos o destino, tão pesado como as bilhas do leite.
Ana Monjardino
Publicado por Ana Marchand no blogue Escrever é triste
segunda-feira, 19 de maio de 2025
Al Berto - pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória… amas
ou finges morrer
pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas
é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves
já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes
Al Berto
Rumor dos Fogos (1983)
quinta-feira, 15 de maio de 2025
Luciana Martins - desvelamento
desvelamento
minha configuração verdadeira
é só um monte de livros
uma vontade qualquer de amor
uma infância que adquiri na memória
a configuração de meu pranto
é feita só de ais
e a contextura de minha dor
é agora inenarrável
Luciana Martins
Lapidação da aurora (1996)
(Fotografia de Irene Carbonell)
segunda-feira, 12 de maio de 2025
Manuel da Fonseca - Tragédia
Foi para a escola e aprendeu a ler
e as quatro operações, de cor e salteado.
Era um menino triste:
nunca brincou no largo.
Depois, foi para a loja e pôs a uso
aquilo que aprendeu
— vagaroso e sério,
sem um engano,
sem um sorriso.
Depois, o pai morreu
como estava previsto.
E o Senhor António
(tão novinho e já era «o Senhor António»!...)
ficou dono da loja e chefe da família...
Envelheceu, casou, teve meninos,
tudo como quem soma ou faz multiplicação!...
E quando o mais velhinho
já sabia contar, ler, escrever,
o Senhor António deu balanço à vida:
tinha setenta anos, um nome respeitado...
— que mais podia querer?
Por isso,
num meio-dia de Verão,
sentiu-se mal.
Decentemente abriu os braços
e disse: — Vou morrer.
E morreu!, morreu de congestão...
Manuel da Fonseca
Planície (1941)
sexta-feira, 9 de maio de 2025
Ricardo Silvestrin - Eu
EU
Véu que revela
e oculta
conforme a vontade
do vento.
Sombra do som,
senda no sonho,
aqui se esconde um eu
livre de mim e de você.
Aonde ele vai,
por que ele é assim,
ninguém pode saber.
Um eu em terceira pessoa.
Senhor absoluto
da sua casa de papel.
Ricardo Silvestrin
Porto Alegre, 1963
(Lido em Rua das Pretas)
(Ilustração de Heitor Isoda)




