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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

José Eduardo Agualusa, "Angolano, cidadão do mundo"



Em 21 de outubro de 2011 foi publicada na revista brasileira Forum uma entrevista com o escritor angolano José Eduardo Agualusa. Encontrei-a por acaso e cá está.



Angolano, cidadão do mundo

O romancista José Eduardo Agualusa ataca o nacionalismo literário e defende o seu direito de escrever sobre qualquer lugar do planet.

(...)

O escritor ficou mais conhecido no Brasil depois de participar do II Festival Literário Internacional de Paraty (em julho de 2004) ao lado de Caetano Veloso na mesa-redonda “África e Brasil: Verdades Tropicais”. Agualusa foi o escritor mais vendido na livraria oficial do evento durante os seus cinco dias de duração. Sua obra evidencia a miscigenação não apenas étnica mas principalmente cultural, que continua ocorrendo nos países de colonização portuguesa, porém não fica restrita a esse tema. “Antes de ser cidadão angolano, sou cidadão do mundo e tenho o direito de escrever sobre o mundo inteiro”, diz, nesta entrevista à Fórum, o autor de doze livros já traduzidos em oito línguas.

Descendente de brasileiros e portugueses, Agualusa mudou-se para o Brasil em 1998 e viveu em Olinda e no Rio de Janeiro. Hoje, com 50 anos, se divide entre Luanda e Lisboa, onde é correspondente do jornal Público e da RDP-África (estação de rádio estatal portuguesa).

Sua família é portuguesa do lado materno e brasileira do lado paterno. Você nasceu na África, mas não tem ascendência angolana? Não. Eu tenho é descendência angolana. Sou um afro-ascendente. Tenho família de muitas cores, graças a Deus. Odeio a uniformidade [Agualusa é casado e tem dois filhos nascidos em Angola]. Vivi toda a minha infância e boa parte da minha adolescência na cidade de Huambo, no planalto central de Angola. Depois fui estudar Agronomia e Silvicultura em Lisboa.

A independência de Angola aconteceu durante a sua adolescência (1975). Que lembranças você guarda dos conflitos? Teve algum contato com o Movimento Popular para Libertação de Angola (MPLA)? Com o MPLA, não. Tive contatos com grupos ligados à esquerda angolana, designadamente a Organização Comunista de Angola, muito próxima do partido comunista brasileiro, cujos elementos foram na sua maioria presos, e alguns sujeitos à tortura, imediatamente após a independência — quando o MPLA tomou o poder. Se você ler Estação das Chuvas (romance publicado por Agualusa em 1997) compreenderá melhor todo esse processo. Os militantes de esquerda só foram soltos após a morte de Agostinho Neto e depois que o presidente José Eduardo dos Santos conseguiu consolidar o seu poder, ou seja, em 1980.

Suas narrativas têm cenários como Angola, Portugal, Brasil, Goa e Argentina. Na sua opinião, o ponto de partida da ficção é a realidade ou a criação prescinde da experiência prática? Normalmente parto da realidade. Alguns dos meus romances estão muito próximos do jornalismo, ou, pelo menos, exigiram de mim uma pesquisa sobre a atualidade, à maneira de um jornalista. Contudo, o meu último romance, O Vendedor de Passados, é pura ficção.

Alejo Carpentier falou da dificuldade dos artistas latino-americanos assumirem a própria cultura, o que os faz importar padrões estéticos europeus em vez de valorizar a linguagem de seus países. Como é isso com os escritores africanos? Acontece. Mas também acontece o inverso — um excessivo nacionalismo literário que pode empobrecer nossas literaturas. Não gosto de nacionalismo. O nacionalismo conduz quase sempre ao fascismo. Antes de ser cidadão angolano, sou cidadão do mundo e tenho o direito de escrever sobre o mundo inteiro e de ler e ser influenciado pelos grandes escritores. Há uma armadilha racista que pressupõe que o escritor africano só pode escrever sobre o seu quintal; caso contrário é alienado, enquanto que um escritor europeu pode escrever sobre África e até lhe fica bem — demonstra abertura pela cultura do outro. Isso pode ser resumido assim: aos brancos, o mundo inteiro; aos negros, o quintal.

É feita alguma modificação na linguagem ou na ortografia de seus livros para o lançamento no Brasil devido às diferenças entre o chamado “português brasileiro” e o de Angola? Os livros são publicados com a ortografia brasileira. Isso não tem rigorosamente nada que ver com a linguagem. Neste último livro, Manual Prático de Levitação, uma edição especial para o Brasil, eu mesmo fiz algumas ligeiras adaptações para o português brasileiro.

E o que poderia ser feito para aumentar o reconhecimento da cultura lusófona, prejudicada pelo fato de a língua portuguesa ser pouco falada no mundo se comparada ao francês, o inglês e o espanhol, por exemplo? Sim, é um constrangimento. Deveria haver mais apoios às traduções. Acho inconcebível que um país com a dimensão do Brasil não possua nenhuma instituição equivalente ao Instituto Camões, ao Instituto Goethe, à Aliança Francesa etc.

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa cumpre esse papel, já que, entre seus objetivos, está o de estimular a cooperação cultural e a promoção da língua portuguesa? Não. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa está adormecida. Infelizmente é um excelente projeto, criado por um brasileiro, o embaixador José Aparecido de Oliveira, que começou muito mal.

Você é a favor de se criarem padrões únicos para as variantes da língua portuguesa faladas nos diferentes países lusófonos? Acho importante unificar a ortografia como forma de promover e afirmar a língua portuguesa internacionalmente. Enquanto existirem duas ortografias, será sempre difícil a língua portuguesa ser aceita como organismo de trabalho em organizações internacionais. Além disso, uma ortografia unificada facilitaria a circulação dos livros no espaço lusófono.