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sexta-feira, 18 de março de 2016

Meditação do Duque de Gandia... (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Rita Loureiro


Com este belo poema de Sophia de Mello Breyner Andresen celebramos antecipadamente o Dia Mundial da Poesia (21 de março).

Desconheço a causa de a última estrofe do poema, que cá podemos ouvir nas duas versões, não aparecer na maioria das pesquisas que fiz. O último verso nelas é "Nunca mais servirei senhor que possa morrer."



MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA
SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL

Nunca mais
a tua face será pura limpa e viva,
nem teu andar como onda fugitiva
se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
do teu ser. Em breve a podridão
beberá os teus olhos e os teus ossos
tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
sempre,
porque eu amei como se fossem eternos
a glória, a luz e o brilho do teu ser,
amei-te em verdade e transparência
e nem sequer me resta a tua ausência,
és um rosto de nojo e negação
e eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

Nunca mais te darei o tempo puro
Que em dias demorados eu teci
Pois o tempo já não regressa a ti
E assim eu não regresso e não procuro
O deus que sem esperança te pedi.

Sophia de Mello Breyner Andresen 



Isabel de Portugal, de Ticiano, no Museu do Prado


Em 1529 faleceu a imperatriz Isabel da Alemanha, esposa de Carlos V e filha de D. Manuel de Portugal. A imperatriz estava no auge da sua beleza e do seu poder, sendo estimada e respeitada por todos na Alemanha. Carlos V decidiu que Francisco de Borja, futuro duque de Gandía, deveria acompanhar os restos mortais de D. Isabel até ao panteão real de Espanha, em Granada. Aí chegados, quinze dias depois, e sob um sol abrasador, Francisco de Borja teve que reconhecer o corpo já em adiantado estado de decomposição. Nessa altura reflectiu profundamente sobre a fragilidade das glórias do mundo e decidiu que só valia a pena amar a Deus, o único ser que é eterno: nunca mais amarei quem não possa viver sempre!

Mais tarde, devido àquela decisão, S. Francisco de Borja irá ingressar na Companhia de Jesus de que seria figura destacada.

(Fonte: "São Francisco de Borja" em História 8)



Ana Paiva