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sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

A consoada (Carlos Lopes)




A consoada

As férias foram bem negociadas. Não é que ele propriamente dito precisasse de as negociar, como qualquer chefe. Felizmente tinha um emprego que lhe dava uma certa autonomia, que por acaso só servia para aumentar a carga horária, visto ser muito consciente das suas responsabilidades. Mas, negociadas foram, porque, dos cinco companheiros de viagem, três não beneficiavam dessas mesmas regalias e os outros dois, miúdos, dependiam do calendário escolar. Lá se foram todos, estrada fora, a enfrentar um caminho que se sabia difícil, porque as ligações rodoviárias entre Bissau e o Senegal não são fáceis.Ultrapassado o quilómetro 10, lá apareceu a primeira barreira de controlo. Um fiozinho esticado no meio da estrada, invisível mesmo, para quem não soubesse que aí se encontrava um vestígio arcaico do tempo da guerra. Uma casa rudimentar, coberta com folhas de zinco, com a tinta já a pedir nova lavagem, vários indivíduos com fardas multicolores desbotadas, camisa desapertada até meio do peito, sentados, olhando para o colega, mais à frente, que na berma da estrada franzia os olhos com o ar arrogante, tentando demonstrar o seu poder, que neste caso específico era o de fazer parar toda a gente com a desculpa de que se tratava de controlo alfandegário. Normalmente passavam todos os que deveriam ser controlados e eram revistados os pobres coitados. Depois foi Djugudul e quase sem parar depressa chegaram a Farim, a tempo de apanhar a jangada no lado de cá. Isto de jangadas é outra negociação. Quando se chega à margem, encosta-se o carro à direita, atrás dos que o precedem. Espera-se com impaciência e, quando a barcaça atraca, põe-se imediatamente o motor a trabalhar para evitar qualquer ultrapassagem indesejada. Há sempre uns senhores espertos, normalmente personalidades políticas, que tentam mostrar o seu estatuto não respeitando as filas. Depois, é a gincana, entre os passageiros a pé, a rampa que nunca fica presa e que com isso faz perder tempo. O motor da jangada que vai lutando contra a maré, e os sinaleiros voluntários que vão indicando para onde se devem mexer as rodas. Tudo isto no meio de um lodaçal e água a chapinar, quando a rampa se distancia mais do que o normal. As aventuras pareciam terminadas pelo menos até à fronteira do Senegal. Aí viveu-se uma outra experiência rotineira de controlo corriqueiro e corrupção amargurada. Se não fosse verdade, seria surrealista. Depois, descanso merecido em hotéis que até têm água quente, comida francesa, piscinas limpas e praias maravilhosas. Mas a negociação das datas obrigava o regresso antes do NatalE no regresso começaram as aventuras, desta feita altamente indesejadas. A primeira má notícia foi a de que a jangada de Farim estava avariada. Mais: avariada na outra margem do rio. Fazia já dois dias que não se observavam travessias. No pontão olhando para a multidão curiosa estavam vários carros de cidadãos urbanos que pareciam perdidos na aldeia adormecida. Uma coisa era certa: não havia como albergar tanta gente em Farim, embora não fossem muitos. Distinguia-se no quadro apocalíptico um Land Cruiser que parecia superequipado, de onde despontavam duas figuras "dandies", impecavelmente trajadas de branco, da cabeça aos pés, ou seja, do chapéu às sapatilhas. O casal, soube-se depois, era belga e estava a fazer uma travessia de África. Por isso, o incómodo da jangada parecia-lhes transponível. Perguntaram qual era o problema e parecia ser a falta de um pistão e óleo. Depressa saíram do armário ambulante os produtos desejados, que calmamente foram levados para a outra margem do rio por uma canoa. E começou a espera: uma, duas horas, e finalmente ouviu-se o ruído da jangada ao longe como que a brotar energia. Também foi sol de pouca dura. Apagou-se o sobressalto e da margem oposta só se moveu a canoa, de regresso com as más notícias. O pistão e o óleo não chegaram para acordar a barcaça moribunda. Com uma calma de fazer inveja, só possível de quem muito amor tem à África e de tudo neste mundo já viu, despontou um sorriso sereno e a demonstração da liderança. Era o belga que, depois de ter contado algumas das suas histórias do deserto, agora pacientemente explicava que a fronteira já tinha fechado, que o sol em breve desapareceria e que a única hipótese seria seguir por terra firme, contornando o rio para o atravessar na sua parte baixa, por caminhos que um seu mapa indicava. Os habitantes de Farim, que partilhavam estes momentos únicos, confirmavam a existência do tal caminho. Existia sim senhor, mas de certeza que por ali não passavam carros há muitos, muitos anos. Para os belgas não havia tempo a perder. Quem quisesse que viesse! Entre dormir ao relento, com miúdos, numa antevéspera de Natal, sem certeza de ter jangada no dia seguinte, e seguir "dandies" determinados que pareciam saber do que falavam, até ele, que era da terra, achou melhor a segunda hipótese.O caminho começou bem, mas depressa chegou a noite, e, como que milagrosamente desapareceu o caminho, mas os belgas sacaram de um potente holofote e continuaram a marcha por palhas altas, no que parecia já ser um caminho sim, mas de bicicleta. Atravessaram-se ribanceiras, pedregulhos e outros atropelos físicos, até mesmo um terreno cultivado. De vez em quando havia uma paragem, para que com o holofote determinasse exactamente por onde continuava esse caminho de bicicleta. Mas os belgas, com os seus dois instrumentos adicionais, o mapa e a bússola, continuavam imperturbados e sem perder o sorriso. Ele sabia-o, porque várias vezes pararam e com toda a graça os belgas ofereciam água gelada e outros brilharetes só possíveis com milagres: um carro diferente de todos os outros. E depressa se saberia que sim, diferente era, porque ele deixou de sentir a sua caixa de velocidades e percebeu que era o fim da linha. De facto, tinha-se partido qualquer coisa. Os miúdos já tinham deixado de resmungar. O cansaço transformou-se em sono. Todos hesitavam entre pensar em tudo o que já se tinha vivido na viagem ou imaginar que o melhor era chegar no dia seguinte a Bissau. Parecia já longínquo este pensamento. E foi com ele na mente que os homens da parada foram amarrando o veículo ferido ao brilhante Land Cruiser. Novas cruzadas, cordas rebentadas, atolanços desesperados, mas sempre energias renovadas para continuar a jornada. Até que 7 horas depois, em plena noite de luar, finalmente desponta um pedaço de estrada em terra batida que, nas circunstâncias vividas, parecia a auto-estrada de Manhattan. Os belgas tinham razão: com o holofote, bússola e mapa chegaram ao caminho de Contuboel.Acordar o pessoal do Centro de Formacção de Contuboel, àquela hora, parecia ser intimidatório, mas, quando o grupo se aproximou, ficou surpreendido com o enorme barulho de um baile que antecipava já o Natal. Felizmente. Conseguiu-se a desejada guarida, para os belgas e tudo. E no dia seguinte, depois de um acordar tardio, o almoço foi arroz branco com cavalas de conserva. Mas os simpáticos do centro ofereceram uma boleia até à cidade próxima de Bafatá para que se pudesse telefonar para Bissau a pedir socorro. Os belgas esses já não foram da companhia das cavalas, com certeza fartos dos dissabores impostos por nacionais pouco conhecedores da geografia local. Foram bem-vindos os reforços: ele viu com prazer o seu Lada creme e não resistiu a regressar a toda a velocidade. E foi depois de Mato-Cão que se matou uma vaca e não um cão. O carro duro como os soviéticos sobreviveu. Escândalo que atraiu os populares: de quem é a vaca? Ninguém conhecia nem a vaca nem o dono, por isso o melhor era transformá-la em presente de Natal. Afinal nessa noite festejar-se-ia o nascimento do Menino Jesus. A sucessão de acontecimentos parecia não ter fim e a viagem de regresso, essa, já durava mais do que 24 horas. Uma vez em Bissau, carro estacionado, novas contadas, chegava a hora do banho e do pequeno descanso em preparação para a consoada. Que consoada tão bem-vinda... Mas o destino ia ser outro. Como se não bastasse tudo o que já tinha acontecido, ouviam-se agora gritos, vindos do quintal, do que parecia ser uma rixa bem agressiva. Corrida, atropelos e descoberta: era um ladrão apanhado pela justiça popular. E que tinha roubado? Um colchão que lhe pertencia. Despiram o ladrão, davam-lhe pontapés. Ele contorcia-se sem defesa, gritando por ajuda. Quem o ajudou? Ele, claro, que depois de tantas viagens estava agora a caminho da casa do ladrão, porque, se o levasse à esquadra, talvez este nunca mais visse Natal. Agora imagine-se o paradoxo de entregar um ladrão em cuecas, espancado e ensanguentado, à mãe do dito cujo, que chorando agradecia a benevolência do roubado. Agora sim, tinha terminado a viagem. Agora sim, viesse a consoada. Só na minha terra mesmo.


Carlos Lopes
(sociólogo guineense)



Publicado no jornal Público (27-2-2000)