segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Manuel Bandeira - Era um agosto

Fotografia de Petra Costa


ERA UM AGOSTO

Quando olhada de face, era um abril;
Quando olhada de lado era um agosto.
Duas mulheres numa: tinha o rosto
Gordo de frente, magro de perfil.

Fazia as sobrancelhas como um til;
A boca, como um o (ou quase). Isto posto,
Não vou dizer o quanto a amei, nem gosto
De me lembrar, que são tristezas mil.

Eis senão quando um dia...Mas, caluda!
Não me vai bem fazer uma canção
Desesperada, como fez Neruda.

Amor total e falho...Puro e impuro...
Amor de velho adolescente... e tão
Sabendo a cinza e pêssego maduro.

Manuel Bandeira



sexta-feira, 31 de julho de 2020

Hélia Correia - A tentação

Fotografia de Gjorgji Orovcanec


A TENTAÇÃO

Dizei minha mãe, contai-me
Como é feita a tentação?
Será pessoa malina
Que me espreite numa esquina
E me tome o coração?

Que cuidados, que canseiras,
Que portas aperreadas,
Ai senhora, que há la fora
Que nos tem aqui cercadas?

Que malas artes se escondem
Sob uma saia comprida?
O que há dentro de mim
Que me faz correr assim
Como que um perigo de vida?

Dizei minha mãe, contai-me,
Penas de amor o que são?
Se são penas de penar
Se nos levantam no ar
Como as garras de um falcão?

Se há um beco sem saída
Onde fica a sua entrada?
Ó mãe, contai-me um segredo
Que eu nem sei se tenho medo
Ou se tremo de apressada?

Hélia Correia


quarta-feira, 29 de julho de 2020

Filipa Leal - Nos dias tristes não se fala de aves

Fotografia de Angelica Takche


NOS DIAS TRISTES NÃO SE FALA DE AVES

Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

Nos dias tristes é Inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento e diz-se
- bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.

Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.

Filipa Leal


Ouvimos a poeta dizer estes versos en Lyrikline.



segunda-feira, 27 de julho de 2020

Luísa Ducla Soares - Tudo numa semana



TUDO NUMA SEMANA

Segunda-feira nasci,
na terça fui para a escola,
na quarta estava casado,
na quinta toquei viola,

na sexta tive três filhos,
no sábado envelheci,
no domingo veio a morte,
dei-lhe um estalo, estou aqui.

Luísa Ducla Soares




quinta-feira, 23 de julho de 2020

Carlos de Oliveira - Vento

Fotografia de Maria Teresa Teixeira


VENTO

As palavras
cintilam
na floresta do sono
e o seu rumor
de corças perseguidas
ágil e esquivo
como o vento
fala de amor
e solidão
quem vos ferir
não fere em vão,
palavras.

Carlos de Oliveira




segunda-feira, 20 de julho de 2020

Manuel de Freitas - Café Schiller

Cafe Schiller Bar, Rembrandtplein, Amsterdam.
Fotografia de one-thirteen


CAFÉ SCHILLER

Foi tudo em vão, novamente.
Estava a muitos quilómetros de Amsterdão,
se é que me percebes, embora gostasse
das riscas negras dos sofás, do metal
antigo dos candeeiros, do andar
tão firme de quem servia as bebidas.

Esta mulher vai entrar hoje
no meu passado. Não sei como se chama,
nem me interessa sabê-lo. Sorriu-me,
ou julguei que me sorriu, enquanto eu pagava
dois descafeinados, uma água com gás
e um Jameson que sabia mal, a desamor.
Vou pedir-lhe de troco o esquecimento,
a curta memória da blusa que lhe comprimia
o peito e dava às costas
um jeito irrepetível de prelúdio.

Eu, que vou morrer, desejei-te.

Manuel de Freitas



quinta-feira, 16 de julho de 2020

Manoel de Barros - “No descomeço era o verbo...”

Fotografia de Luis A. Florit


No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.

Manoel de Barros