ELEGIA
Há coisas que a gente não sabe nunca o que fazer com elas...
Uma velhinha sozinha numa gare.
Um sapato preto perdido do seu par: símbolo
Da mais absoluta viuvez.
As recordações das solteironas.
Essas gravatas
De um mau gosto tocante
Que nos dão as velhas tias.
As velhas tias.
Um novo parente que se descobre.
A palavra "quincúncio".
Esses pensamentos que nos chegam de súbito nas ocasiões mais impróprias.
Um cachorro anônimo que resolver ir seguindo a gente pela madrugada na cidade deserta.
Este poema, este pobre poema
Sem fim...
Mario Quintana
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
Mario Quintana - Elegia
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
António Quadros Ferro - «Nunca escrevi um poema sobre o jogo do berlinde…»
Nunca escrevi um poema sobre o jogo do berlinde mas quase
que posso jurar que o último que joguei, entre pinhais, para
sempre interrompido pela chuva, ainda se joga às metades.
António Quadros Ferro
(Lisboa, 1983)
em Ou a Empatia, Lisboa: Artes e Letras Atelier, 2015
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
Pedro Mexia - Identidade
IDENTIDADE
A identidade, como a pele,
renova-se, perde-se de sete
em sete anos, muda no mesmo
corpo, torna diferente
a permanência humana.
A identidade é a soma
das intenções, uma foto
instantânea para um propósito
imediato que não dura.
A identidade é um equívoco
para camuflar o coração.
Pedro Mexia
Duplo Império (1999)
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
Cecília Meireles - Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?
Cecília Meireles
Fotografia de Daniel Iglesias, Creuza - Estátua Viva, 2007)
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
Maria do Rosário Pedreira - “Que guardarão de mim…?
Que guardarão de mim as casas que
deixei? O pó sobre o meu nome?
Maria do Rosário Pedreira
Nenhum nome depois (2014)
(Fotografia de Marina Alfaya, Elos, 2009)
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
Isabel Nogueira - "Tirou do bolso o canivete..."
Acto naturalmente impróprio, a respeito do qual seria desnecessário ajuizar.
Abriu-o, passou ao de leve os dedos pela lâmina, e descascou a maçã.
Os olhos nunca saíam do barco. Nem do mar.
A prática fazia-o retirar a casca à fruta sem necessidade de olhar.
Era tudo uma questão de hábito e de motricidade fina.
Isabel Nogueira
Peso pluma, Paralelo W, Lisboa, 2015.
(Fonte: Hospedaria Camões)





