O AMOR É O AMOR
O amor é o amor — e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...
O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!
Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor
e trocamos — somos um? somos dois? —
espírito e calor!
O amor é o amor — e depois?
Alexandre O'Neill
Abandono Vigiado (1960)
(Fotografia de Antonio Gutierrez)
UM REINO MARAVILHOSO
POESIA (e mais) de que gosto
terça-feira, 1 de abril de 2025
Alexandre O’Neill - O amor é o amor
segunda-feira, 31 de março de 2025
Teresa Dias Coelho - Mas há um dia...
É danado, mas há um dia, que, sabe-se lá porquê (até se sabe) tomamos consciência da nossa "finitude", morrem-nos os amigos, as referências de geração, ou de forma de estar, ficamos cada vez mais sós, cá nos aguentamos, que somos dessa espécie, a de nos aguentarmos, sobreviventes, por isso mesmo tenham cuidado connosco, não temos nada a perder e podemos ir aos limites do que possam imaginar, se é que podem imaginar seja o que for.
Teresa Dias Coelho
sexta-feira, 28 de março de 2025
António Reis - “Mudamos esta noite…”
Mudamos esta noite.
E como tu
eu penso no fogão a lenha
e nos colchões
onde levar as plantas
e como disfarçar os móveis velhos
Mudamos esta noite
e não sabíamos que os mortos
ainda aqui viviam
e que os filhos dormem sempre
nos quartos onde nascem
Vai descendo tu
Eu só quero ouvir os meus passos
nas salas vazias
António Reis
Poemas quotidianos (1967). Há uma edição da Tinta da China de 2017 com prefácio de Fernando J.B. Martinho e posfácio de António Sapinho.
Blog António Reis (último post: 25-9-2020)
(Fotografia de Pedro Couto e Santos)
segunda-feira, 24 de março de 2025
Manuel Bandeira - Rimancete
RIMANCETE
À dona do seu encanto,
À bem amada pudica,
Por quem se desvela tanto,
Por quem tanto se dedica,
Olhos lavados em pranto
O seu amante suplica:
O que me darás, donzela,
Por preço do meu amor?
— Dou-te meus olhos (disse ela),
Os meus olhos sim senhor…
— Ai, não me fales assim!
Que uma esperança tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço do meu amor?
— Dou-te os meus lábios (disse ela),
Os meus lábios sim senhor
— Ai não me enganes assim!
sonho meu! Coisa tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço do meu amor?
— Dou-te as minhas mãos (disse ela),
As minhas mãos sim senhor…
— Não me escarneças assim!
Bem sei que prenda tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela
Por preço do meu amor?
— Dou-te os meus peitos (disse ela),
Os meus peitos sim senhor…
— Não me tortures assim!
Mentes! Dádiva tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço do meu amor?
— Minha rosa e minha vida
Que por perdê-la perdida,
Me desfaleço de dor…
— Não me enlouqueças assim,
Vida minha! Flor tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela?
— Deixas-me triste e sombria.
Cismo… Não atino o quê…
Dava-te quanto podia…
Que queres mais que te dê?
Responde o moço destarte:
— Teu pensamento quero eu!
— Isso não… não posso dar-te…
Que há muito tempo ele é teu…
Manuel Bandeira
Carnaval (1919)
(Fotografia de André Mantelli - Segredos de carnaval, 2010)
quinta-feira, 20 de março de 2025
Fernando Pessoa / Álvaro de Campos - “Soneto Já Antigo”
III
Olha, Daisy, quando eu morrer tu hás-de
Dizer aos meus amigos ai de Londres,
Que embora não o sintas, tu escondes
A grande dor da minha morte. Irás de
Londres p’ra York, onde nasceste (dizes —
Que eu nada que tu digas acredito...)
Contar àquele pobre rapazito
Que me deu tantas horas tão felizes
(Embora não o saibas) que morri.
Mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
Nada se importará. Depois vai dar
A notícia a essa estranha Cecily
Que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!...
(A bordo do navio em que embarcou para o Oriente; uns quatro meses antes
do Opiário, portanto) Dezembro 1913
“Três Sonetos” Álvaro de Campos - Livro de Versos. Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 2.
1ª publ. com o título “Soneto Já Antigo” in Contemporânea, nº 6. Lisboa: Dez. 1922.
(http://arquivopessoa.net/textos/4390)
segunda-feira, 17 de março de 2025
José Tolentino Mendonça - O teu rosto aos vinte e cinco anos de idade
Numa conversa sobre o destino da arte
lembro o teu rosto
onde os elementos ensaiam
a revelação dos primeiros detalhes
irremediáveis:
a marca da sombra, o recuo das forças,
o alarme da dor,
a arte existe apenas
como homenagem (pobre, desolada)
àquilo que cada rosto foi
um dia através da paisagem.
José Tolentino Mendonça
Baldios (1999), em A Noite Abre Meus Olhos [poesia reunida], Assírio & Alvim, Lisboa, 2008
sexta-feira, 14 de março de 2025
Antero de Alda - Celestine
Há quem tome comprimidos para a diabetes, para o coração, para o colesterol... Há também quem tome comprimidos para morrer e quem tome comprimidos para matar. Há ainda quem não tome comprimidos, nem para a diabetes, nem para o coração, nem para o colesterol, nem para morrer ou para matar. Provavelmente, só para sobreviver...
Até que as pedras se tornem mais leves do que a água, como diz António Lobo Antunes. Ou até que uma nova alma húmida seja capaz de nos resgatar de certa solidão existencial.
Enfim, deverei tomar algum comprimido para não morrer?
Antero de Alda
(Antero de Alda - abril 2018)