quarta-feira, 1 de abril de 2026

Cristovam Pavia - «O poema que hei-de escrever para ti…»

 



O poema que hei-de escrever para ti, dando notícias
Do último reduto das coisas, das profundidades intactas,
Nasce, adormece e referve-me no sangue
Com a íntima lentidão dos teus seios desabrochando,
Porque, sei, não estás longe (nem da minha vida!),
                                                                   [meu mistério fiel.
Hoje a nossa companhia é a tua inconsciência 
                                                                    [e o teu instinto: puro
Instinto que eu, de longe, embalo e velo
E acordará («em frente!») às primeiras palavras
Do poema, quando ele despontar.

Cristovam Pavia



(Fotografia de V. Mestre Santana)


Sublinhado a lápis: Ruy Belo


Eu sabia que a via e ao vê-la a perdia.

Ruy Belo




“Encontro de Garcilaso de la Vega com dona Isabel Freire, em Granada, no ano de 1526”, em Toda a Terra (1976).  Obra poética de Ruy Belo, volume 2. Organização e prefácio de Joaquim Manuel Magalhães. Editorial Presença, 1981